MACACOS PELADOS será que não passamos disso?
03 Jun 2010 Incompreensão
No parênquima de odores desgastados
A timidez de negros olhos lhe surgia
E a sobrancelha homozigota disfarçado
Por entre zeugmas de outono aparecia
No anacoluto dos espaços esquecidos
As tempestades de monções apaixonadas
Viam o log suavemente adormecido
Enquanto as flores coreanas abraçadas
Oh! Queridos Zéfiros e tuberculosos!
Por que exercem sobre mim diplomacia?
Deixem-me viver horrores tumultuosos
Se o estômago fizer dali autocracia
Os joelhos jamais serão ditosos
E todos os hindus, em agonia.
25 Apr 2010 Aparências, que continuam enganando
Em seu rosto morava o céu: seus traços finos e proporcionais pareciam angelicais. Sua postura correta e séria passava-lhe uma imagem recatada. Todos a respeitavam, o que era compreensível já que a moça era tão respeitosa. Mas ela não entendia tal tratamento. A verdade é que seu coração queimava de desejo e suas entranhas contorciam-se a todo tempo. Era uma perfeita insaciável.
A lascívia morava em sua alma, todos a seus olhos eram perfeito amantes: não via formas ou contornos, via atos e consegui sentir na pele todo o prazer que poderiam lhe proporcionar. Sequer importava-se com gêneros, tudo o que queria era a satisfação, que dava a todos antes de conseguir alcançar.
Não andava, desfilava examinando cada uma sua volta. Não olhava, penetrava a alma com força. Não achava graça, ria de desespero. Não beijava, enfeitiçava com lábios e língua. Não amava, buscava o máximo prazer. Não abraçava, segurava com os braços para não esvair por suas mãos. Mas chorava por sua vida de solidão. E chorava por horas...
Simplesmente, não queria todo aquele respeito, queria ser tratada como a meretriz que se considerava. Queria olhares maliciosos, queria coitas amorosas e obscenidades, nada de cumprimentos banais. Queria que sua alma se expandisse e se mostrasse, que a conhecessem, por fim.
Era o que sempre dizia:
- Você não me conhece.
- Claro que conheço – respondiam.
- Não até irmos para o meu quarto – era o que apenas pensava, sem nada responder.
É o que todos sempre dizem: as aparências enganam. Mas por que todos cismam em não acreditar nisso?
13 Apr 2010 O general ri com seus botões
RIO DE JANEIRO - "Que povo unido o quê! Que história é essa? Vocês estão presos!". Em uma entrevista que está sendo anunciada pelo canal da TV paga Globonews, o general da reserva Newton Cruz relembra o tempo em que andava a cavalo pelas ruas de Brasília reprimindo aqueles que pretendiam, há 26 anos, votar para presidente.
Hoje soa engraçado assistir ao general de pijama ralhar contra "os comunistas" que ele orgulhoso conta que mandou prender. A história o mandou para o pé da página.
A brutalidade contra a democracia brasileira existiu, é inapagável, seus agentes envelheceram impunes, mas ao menos ridicularizados. Aquela história de rir por último e melhor parece verdadeira.
"Que história é essa de povo unido?", perguntava-se o general. Naquele momento, parecia haver uma unanimidade nacional em favor do fim da ditadura militar e da volta das eleições livres e diretas.
Mais fortes são os poderes do povo, berrava o personagem glauberiano. Todo o poder emana do povo e em seu nome deverá ser exercido, relembrava o advogado Sobral Pinto. O povo não é bobo, abaixo a Rede Globo!, gritava-se nas praças a plenos pulmões. O povo estava na moda, santificado pelo martírio da ditadura e da carestia.
Hoje, quando se fala em povo, é como gíria para grupamento social específico: o povo da moda, o povo da noite, o povo da rave. O povo foi esquartejado. O povo é octópode como o polvo. Não pode estar unido, nem dele emana poder algum. Nem quer mais botar a Rede Globo abaixo, porque adora o povo do Big Brother, cujo vencedor atacou o povo gay, mas foi defendido pelo povo sincerão, que não tem trava na língua não. Houve mais de cem milhões de votos no BBB, diz a Globo. Dourado recebeu mais votos do que Lula. O general de pijama deve estar rindo com seus botões.
(texto de PLÍNIO FRAGA, publicado em 04 de abril de 2010, na Folha de São Paulo)